“Oi, tudo bom?”

“Nos filmes existem as protagonistas e suas melhores amigas. Você, lhe asseguro, é uma mulher protagonista, mas não sei por qual motivo está agindo como a melhor amiga.”

Essa frase é do filme ‘O amor não tira férias’ (The Holiday, 2006), uma das minhas comédias românticas preferidas, e eu lembrei dela agora, quando estava parcimoniosamente exercendo o meu papel de melhor amiga. Melhor, melhor, talvez não; mas de boa amiga, certamente. Não, eu não acho que não esteja protagonizando minha própria vida, como ocorria com a Iris, personagem da Kate Winslet, enredada num detestável “não-relacionamento abusivo”. Do contrário, eu até acho que cada vez mais venho exercendo o protagonismo da minha vida de forma mais consciente e serena, me arriscando a tomar decisões que anos atrás eu não conseguiria bancar. Parece ser verdade o que dizem sobre a (matur)idade…

O fato é que a questão problemática pra mim não está sendo meu papel de protagonista (que vai bem obrigada), mas sim o de melhor amiga. Cansa quem não entende que amizade é uma via de mão dupla. Cansa quem acha que amigo é igual a terapeuta gratuito. Cansa.

E eu sei que quando somos verdadeiramente amigos, se tem abertura e intimidade para dizer pro outro que você também existe, que tem uma vida e demandas e que também gostaria de ser pauta das conversas entre ambos. Mas, por outro lado, também penso que se somos tão verdadeiramente amigos, o outro deveria se interessar por você sem precisar ser cobrado pra isso.

Quando foi a última vez que você perguntou “tudo bem?” com genuíno interesse em saber a resposta?

Eu gosto de olhar o outro com cuidado e me interesso de coração pelas histórias de vida e da vida daqueles que cruzam o meu caminho. Acredito de verdade que todos têm algo a nos ensinar, a acrescentar ao nosso processo de crescimento. E não acho que isso vá mudar, porque eu me sinto bem assim. É que hoje eu estou cansada.

 

 

Das palavras (de) que eu gosto

O (de) do título é respeito à regência verbal, mas sempre achei que a frase “as palavras que eu gosto” é muito mais sonora, mais gostosa de ouvir do que a outra certinha, com o “de” que que verbo gostar pede.
Tem palavra assim: gostosinha de ouvir. Tem palavra que o significado toca lá fundo. Tem palavra que a gente aprende o que significa e nunca mais consegue parar de usar. Tem palavra que é muleta nos nossos discursos. Tem palavra que é amor, mesmo sendo escrita de outra forma.

Algumas das minhas preferidas:

1. quaisquer
2. simulacro
3. meandros
4. tampouco
5. balacobaco
6. circunstâncias
7. incipiente
8. mequetrefe
9. léxico
10. subjacente

Plus:
catarse
tácito
inexoravelmente

Sobre livros, números e metas

Ler é algo que eu realmente gosto muito de fazer. Fui alfabetizada em casa (o que, em alguns aspectos, me trouxe mais problemas que soluções) e cheguei na escola já sabendo ler e sabendo uma série de outras coisas que, desconfio, somados à minha pouca habilidade social, não me faziam muito popular entre a turma. Minha mãe conta que antes mesmo de eu aprender a ler, eu decorava os livros que ela lia pra mim e depois os lia para as visitas, de modo que elas acreditavam que eu estava mesmo lendo, tão grande que era a minha vontade de ler.

A priori, sem muitos amigos, os livros eram um refúgio; depois fiz amigas que também gostavam de ler e aí os livros passaram a ser um interesse comum. Daí foi bem legal. Foram muitas férias adiantando a leitura de todos os paradidáticos da escola.

Como todo leitor “normal”, houve períodos em que devorei livros em grande velocidade, e outras época de entressafra. A era das redes sociais claro que me devorou, assim como devorou também um monte de outros leitores; uma horinha no twitter, afinal, passa tão rápido, e quando a gente vê, lá se foi aquela hora que daria pra ter lido muitas páginas de um clássico da literatura russa (por que não?). Ler exige concentração e disciplina que outras distrações não exigem; não dá pra comparar, por exemplo, a experiência de assistir série na Netflix à de ler um romance. Não que eu ache que uma seja superior à outra, de forma alguma. São apenas experiências diferentes, e uma não anula ou substitui a outra.

Como nos últimos anos eu consumi pouca literatura não acadêmica, fiz um desafio literário pra mim mesma, me colocando na obrigação de ler pelo menos doze livros em um ano de uma forma mais divertida. Daí que hoje pulou na timeline esse link pra uma matéria da BBC Brasil sobre dicas de “superleitores”, pessoas que leem 100, 200 livros por ano, para ler mais rápido. E a minha meta de doze livros pra depois dobrar a meta ficou um átomo de tão pequenininha. Mas logo veio à cabeça a relação quantidade x qualidade. Até que ponto vale a pena ler um livro por dia, ainda que esse livro seja praticamente um folheto? Vale a pena abdicar totalmente de outros passatempos só porque você entrou numa competição louca com concorrentes imaginários ou mesmo pra ostentar um título de “superleitor”? Pra MIM, não vale. E tudo bem se valer pra você.

Eu realmente quero ler bem mais esse ano; tem muita coisa que eu quero ler há tempos e por uma série de questões não havia tido a oportunidade até então. Mas não vou sair louca, alucinada, atropelando as palavras, lendo sobre funcionamento do cérebro pra descobrir como ler mais rápido ou até fazendo curso de leitura dinâmica. Bom, eu não sou leitora profissional, não ganho dinheiro pra consumir livros, então não pretendo fazer da leitura uma prisão; do contrário, leitura é pra libertar.

Hoje é dia 18, e eu já estou praticamente acabando o Toda Poesia, de Leminski; e já comecei Universo Submerso, de Giba Carvalheira (por acaso, meu marido). Mas tá tranquilo. Eu também consegui acabar de assistir Gossip Girl e tô lá batendo ponto no twitter, escrevendo minhas besteiras e dando RT em gif de gatinho. Dá pra equacionar. Equilíbrio é um mistério, um desafio e uma necessidade.

Por outro lado, tem um livro do Oliver Sacks, Um antropólogo em Marte, que eu estou lendo há mais de seis meses. Não é nenhuma bíblia de tão grande, mas eu escolhi lê-lo aos pouquinhos. Tem livro que é assim, merece absorção. Nele, Sacks❤ descreve alguns casos clínicos extraordinários (como o do pintor que passou a enxergar tudo em preto e branco ou do cirurgião que tinha a síndrome de Tourette, mas cujos sintomas desapareciam quando ele operava) que desafiaram a neurociência. Com a sensibilidade que só ele tinha para tratar de temas tão herméticos e longe da realidade de boa parte de seus leitores, ele mostra as doenças abordados na obra não só como condições curiosas e/ou pouco convencionais, mas como formas diferentes de estar no mundo; nem melhores nem piores, apenas diferentes.

Existem livros e livros. E querer ditar um ritmo único de leitura para todos eles, pra mim, não faz o menor sentido.

Vezenquando

Não foi falta de amor.
Foi excesso de amor, talvez, (o) que fez a gente se perder.
Depois daquele email – é engraçado – eu não tenho mais raiva de você.
Nem a mágoa que tanto me corroeu por dentro resistiu.
Uma curiosa serenidade ficou em mim depois daquelas frases curtas trocadas em nossas caixas de email.
Sinto-me bem por saber que ainda há carinho e que de vez em quando – só de vez em quando – eu sinto a sua falta. Também fiquei feliz por saber que da sua parte não há sentimento ruim. Foi bom ver o código da nossa amizade na assinatura do seu email.
Hoje, eu desejo que você esteja bem e desejo que você seja feliz, ainda que longe de mim.
Longe de ti, confesso: hoje eu queria te ligar pra contar que vou me mudar, que estou animada. Encaixotar as coisas me faz pensar tanto na vida, sabe. É interessante colocar toda uma vida em caixas e ver no quão maior que tanta coisa é a vida, maior que tantas bobagens às quais nos apegamos e damos tanto valor. Queria te falar dessas coisas também, mesmo sabendo que você riria de mim e perguntaria que qualidade de erva eu fumara para ficar nessa de divagações.
Mês que vem, farei um ano de casada. Um ano! E eu sobrevivi. Nós sobrevivemos. Como o tempo passa rápido… Queria falar sobre isso com você também…
Enfim. É isso.
Mesmo que eu diga que não me importo com você, acho que eu me importo sim. E pra mim eu não posso mentir.
Enfim. É isso.
Acho que você sempre vai (me) fazer um pouco de falta.

(L)

*Escrito em 07/09/2015

Desafio literário 2016

Durante um bom tempo, o que eu mais queria fazer e não podia era ler livros de literatura. Poder, podia, na verdade; proibido não era. Mas eu não conseguia devorar romances sabendo que pilhas de livros do mestrado me esperavam (tem gente que consegue. eu não consigo. ponto.)
Agora que eu posso ler meus romancezinhos em paz, que é começo de ano e tem todo esse clima de metas etc., por que não fazer um Desafio Literário meu comigo mesma? O desafio é simples: doze meses, doze livros, doze categorias, não necessariamente na ordem listada. Leitura é exercício, e, em tempos de redes sociais, netflix e afins, é também disciplina.

O Desafio:

1. Um bestseller
2. Um livro de contos
3. Um livro de poemas (“Toda Poesia”, Leminski)
4. Um clássico da literatura mundial
5. Uma biografia
6. Um livro que eu sempre quis ler e sempre deixei pra depois
7. Um clássico da literatura brasileira
8. Um livro de um autor maranhense
9. Um livro de um autor pernambucano (“Universo Submerso”, de Giba Carvalheira)
10. Um romance policial
11. Um livro que virou filme
12. Um livro para reler (“O diário de Bridget Jones”, de Helen Fielding)

:: Comecei a lista do Desafio pelo item 3. Estou lendo “Toda Poesia”, de Leminski. Assim que terminar, escrevo um post com as minhas impressões sobre o livro. Talvez eu escreva antes de terminar, talvez eu tatue uns versos de Leminski, talvez.

UPDATE: O post sobre Leminski não saiu /o\. Mas vou continuar atualizando a lista aqui, com os nomes dos livros e autores lidos em cada categoria à proporção que for avançando no desafio.

Do caminhar

Dez anos atrás, eu tinha todo o roteiro da minha vida na cabeça. Só faltava executar, mas o plano era perfeito, com direito a todas as certezas que só se tem aos 18 anos. Hoje, teimosa que sou, continuo uma boa roteirista da minha própria vida, mas digamos que os planos são mais flexíveis e a margem de erro é bem maior.

Aos 18 anos, a gente sabe bem o que quer, o que não quer, o que nunca vai querer, o que os outros querem, o que os outros não devem querer… A gente sabe tudo!

Aos 28, a coisa fica mais difícil e desconfio que a tendência é piorar. Não sei se esse é um defeito de fábrica da famigerada geração Y, ou será que meus pais, aos 28 anos, também tinham tão poucas certezas? Talvez essa seja uma boa discussão para o jantar de Natal…

É preciso um pouquinho de maturidade, talvez, pra aceitar que não é mesmo fácil saber o que se quer, o que não se quer e o quanto se quer, e reconhecer que essa dificuldade não é errada ou prova de incapacidade. Talvez estejamos respeitando melhor os (nossos) processos de amadurecimento, entendendo que dói – quase sempre – e que pode demorar um pouquinho.

Viver dói. Mas vale a pena.